"Propriedade muito cobiçada". Casa da artista Lourdes Castro à venda por 4,1 milhões de euros

"Propriedade muito cobiçada". Casa da artista Lourdes Castro à venda por 4,1 milhões de euros

No Caniço, na Madeira, a casa e o jardim onde Lourdes Castro viveu e criou as suas sombras chegou ao mercado imobiliário. À RTP, o herdeiro justifica a venda com alegado desinteresse do Estado em relação à propriedade. Já o Ministério da Cultura disse que não, tem "para já, comentários adicionais a fazer sobre o tema".

Filipe Alexandre Gonçalves - RTP / Adicionar como fonte informativa
Em 2021, Lourdes Castro foi condecorada com a Comenda da Ordem de Santiago da Espada. RTP

A casa onde Lourdes Castro deu luz às sombras e dizia ser a sua "última tela" está à venda por 4,1 milhões de euros

Localizada na Estrada do Garajau, no concelho de Santa Cruz, Madeira, a quinta ocupa cerca de 12.330 metros quadrados e é apresentada no mercado imobiliário como uma propriedade com habitação, jardim e potencial para novos projetos.

O anúncio descreve a casa como um espaço que "ultrapassa a ideia de residência". Recorda que foi projetada por Lourdes Castro e pelo seu companheiro, o artista e arquiteto Manuel Zimbro, e que a casa e o jardim constituíam um todo indissociável.

Mas há uma particularidade reveladora: o próprio anúncio comercial recupera a vontade de Lourdes Castro de que aquele espaço fosse preservado como museu e que o jardim permanecesse como homenagem à sua obra.

"A casa deveria ser preservada como um museu, e o jardim, mantido como uma homenagem à sua arte, tal como os jardins de Monet em Giverny.", pode ler-se na descrição do anúncio.
Em reação à notícia, e contactado pela RTP, o Ministério da Cultura fez questão de referir, de forma telegráfica, que tomou conhecimento da venda do imóvel através da comunicação social "não tendo, para já, comentários adicionais a fazer sobre o tema", lê-se na nota
Herdeiro justifica venda por alegado desinteresse do Estado

Além de sobrinho, Nuno Brazão é o único herdeiro da artista Lourdes Castro.

Em resposta à intenção de venda do imóvel, começa por afirmar à RTP que "Existe um tempo de auscultar e existe um tempo para tomar decisões".

Segundo o sobrinho e único herdeiro da artista, depois da morte de Lourdes Castro, há quase cinco anos, contactou a então ministra da Cultura, Graça Fonseca, para manifestar as suas preocupações sobre o futuro da casa. 

A resposta, conta, foi clara: "O Estado não teria qualquer interesse na propriedade."

Nuno Brazão também lamenta não ter seguido em frente a possibilidade de transformar o imóvel numa Casa-Museu Lourdes Castro – Laboratório da Paisagem. E responde que sente "alguma" mágoa por a casa não ter esse destino. 

Mas, acusa, "quem agora critica nunca fez nada para evitar a alienação da propriedade." 

O herdeiro contesta também as críticas que têm vindo a público sobre a venda, lembrando que todos têm direito à opinião, mas defendendo que a preservação do imóvel tem custos.
"As pessoas que agora criticam suportem os custos da sua preservação e da criação do núcleo museológico. Temos esta tradição de criticar mas não encontrar soluções. (...) Mas quem paga sou eu", fez questão de escrever.

Nuno Brazão revela ainda que tentou encontrar uma solução para o vasto espólio documental de Lourdes Castro junto de uma conhecida fundação nacional. 

Segundo relata, a instituição mostrou-se disponível para ajudar apenas mediante a doação de todo o espólio. “Doar?”, questiona.

O sobrinho garante, contudo, que foram encontradas outras soluções para preservar o património documental e artístico da criadora através do Governo Regional da Madeira, da Secretaria do Turismo, Ambiente e Cultura e da direção do MUDAS, Museu de Arte Contemporânea da Madeira.

Quanto ao recheio da casa, esclarece que os livros e quadros visíveis nas fotografias não estão incluídos no preço de venda. 

Já sobre o interesse no imóvel, revela que se trata de "uma propriedade muito cobiçada por não nacionais.”
Um museu que nunca chegou a nascer
Em junho de 2025, antes de a propriedade chegar ao mercado imobiliário, a Assembleia Legislativa da Madeira discutiu uma proposta para a classificação da Casa e Jardim de Lourdes Castro como imóvel de interesse público.

A iniciativa, apresentada pelo PS, pretendia recomendar ao Governo Regional a abertura do procedimento de classificação e defendia ainda a criação da 'Casa-Museu Lourdes Castro – Laboratório da Paisagem'.

No entanto, a proposta acabou rejeitada. PSD, CDS, Chega e IL votaram contra; PS e JPP votaram a favor. Mais de um ano depois, a casa não resistiu ao mercado imobiliário.

"Quem propôs a criação de um polo museológico foi o Partido Socialista. Sem no entanto acautelar o direito à propriedade privada e as consequências das suas propostas. O milagre da multiplicação só funciona em sonhos socialistas. A vida real é diferente", critica o herdeiro, Nuno Brazão.

Foi por altura da votação na Assembleia Regional que Emanuel Gaspar, historiador, juntamente com o arquiteto Victor Mestre, publicou na revista 'Islenha um estudo dedicado à casa-atelier de Lourdes Castro e Manuel Zimbro.
A publicação Islenha dedica-se à publicação de artigos científicos sobre assuntos artísticos, culturais e patrimoniais, contando com o contributo de investigadores regionais e nacionais. 

A reação à venda da casa é contundente: "É um insulto à memória da Lourdes de Castro!", lamentou em resposta por escrito à RTP.

Para o investigador, o que está em causa não é apenas o destino de um imóvel. É a possibilidade de desaparecer fisicamente um lugar que não pode ser separado da obra da artista. 

"Existem soluções alternativas à venda da casa e do amplo jardim", defende o historiador. 

E recorda que Lourdes desejava que aquele espaço fosse preservado, permitindo estudar a sua obra e a de Manuel Zimbro e, simultaneamente, acolher residências artísticas.
A casa que Lourdes dizia ser sua "tela"
Lourdes Castro regressou à Madeira em 1983, juntamente com Manuel Zimbro. Encontraram o seu espaço no Caniço um terreno então isolado, voltado para o mar e para as Ilhas Desertas. 

Ali construíram mais do que uma casa. Construíram um lugar para viver, trabalhar, observar e experimentar. 
A casa nasceu a partir de um projeto de Manuel Zimbro e foi concebida em diálogo permanente com o terreno. Semi-enterrada, branca, com grandes superfícies envidraçadas, muros de basalto e soluções inspiradas tanto na arquitetura moderna como na tradição madeirense, procurava desaparecer na paisagem em vez de se impor sobre ela.

Mas a casa também foi mudando com os seus habitantes.

É precisamente esse o ponto sublinhado por Victor Mestre e Emanuel Gaspar no artigo da Islenha, editada a 20 de junho do ano passado. 

Ambos escrevem que a casa se tornou uma obra de arte que se foi "reinventando e desenvolvendo em sintonia com o experimentalismo" de Lourdes Castro e Manuel Zimbro.

No documentário "Pelas Sombras", de Catarina Mourão, realizado em 2010, a artista olha para o jardim e diz: "Agora é a minha tela. Enrola quando chove a valer, estica demasiado no calor de agosto. Continuo a pintar um quadro só. Que nunca estará pronto."
Marcelo condecora artista de dimensão internacional

Em 2021, um ano antes da morte de Lourdes Castro, Marcelo Rebelo de Sousa visitou-a precisamente naquela residência, no Caniço. Tinha 91 anos.

No final da visita, o então Presidente da República revelou que tinha condecorado a artista com a Comenda da Ordem de Santiago da Espada, falando do "reconhecimento de uma vida e uma obra notáveis".
Marcelo contou também que tinha encontrado uma mulher com "uma vida, uma energia, uma alegria no encarar o futuro". A homenagem tinha uma dimensão nacional e internacional, sublinhou.

Lourdes Castro era, de facto, muito mais do que uma artista madeirense. A sua obra, profundamente ligada às sombras, à luz, à transparência e à natureza, conquistou um lugar singular na arte contemporânea portuguesa.

O historiador Emanuel Gaspar considera que vender a casa de Lourdes Castro sem garantir a sua preservação é "no mínimo um insulto a todos os que entendem a cultura como um dos mais singulares lugares a que todos universalmente pertencemos".
Tópicos
PUB